Ela ficou ali parada, sentindo o vento tocar seus cabelos. Não imaginava antes que em tão pouco tempo, tanta coisa teria mudado em sua vida.
Fazia frio, mas seu coração permanecia aquecido. E em meio àquele turbilhão de interrogações, ela achou tempo para fechar os olhos e se firmar em apenas uma certeza: não estava sozinha.
Ela dançava entre as rosas, e corria pelo bosque, com toda a vitalidade que sua juventude lhe permitia. O sol ainda brilhava, apesar de se preparar para descansar, então ela deitou-se sobre o mar de nuvens que ali havia. Brincou de desenhar formas e riu de sua propria imaginação.
Porque a vida não pode ser como queremos? ela pensou. Seus olhos ainda fechados enxergavam um mundo distante dali, onde crianças sorriam felizes e livres de qualquer mal que as pudessem abater aqui fora. Estavam seguras.
Ela deu um passo, outro passo e abaixou-se. Encontrou duas pequeninas mãos estendidas, e num subito abraço, ela pode sentir o corpinho de sua menina junto ao seu. Seus cabelos eram ainda negros, sua pele branquinha e rosada. E seus olhos, ah, seus olhos! Espertos, brincalhões, risonhos. Como sempre foram. Sentiu a palpitação no coraçãozinho daquela criança linda e forte, e pra sua alegria, ele batia num ritmo como quem tocasse uma melodia harmoniosa.
Como é bom te ver, filhinha! - disse ela, entre lagrimas e sorrisos entre os labios. Já sei falar mamãe. - explicou a garotinha com orgulho - Já sei andar, correr... e meu amigo me ensinou a conversar com os animais também.
E ficaram até o entardecer juntas, explorando aquele paraíso. Nadaram nos rios, colecionaram estrelas, voaram com as borboletas... A mamãe a ensinou tudo o que sabia, e descobriu que sabia ainda menos que sua pequena. Não poderia existir cousa melhor que ter mais uma vez a oportunidade de amar seu maior amor com atitudes e toques e palavras.
Ao escurecer totalmente, a menina virou-se para aquela jovem mãe e beijou-a com ternura na testa. "Adeus, mamãe." Adeus? Não, não se vá! Te tenho aqui comigo e não posso deixa-la escapar, não posso suportar viver sem seu sorriso! Mas a menina riu e tentou acalmá-la: "Querida mamãe... não faz nem um minuto que estamos separadas! O tempo aqui é diferente. Quando eu vim embora, pedi para que pudesse trazê-la comigo, mas meu grande amigo me explicou que você ainda precisava ficar mais um pouquinho lá do outro lado, pois nosso amor tocaria outras pessoas e planos deveriam ainda se cumprir na sua vida. Mas minha missão, ela já acabou. Sinto muito que tenha ficado, mamãe, deve ser duro. Mas a sua hora vai chegar também, somente cumpra direitinho seu papel na Terra e seja feliz." A outra ficou perplexa. Como tinha crescido e ficado esperta! Como se orgulhava de seu charminho! Secou as lágrimas, pois entendeu o quão as palavras daquela pequena sábia eram racionais. "Vou te contar um segredo. Meu amigo me disse que amanhã que você poderá vir morar conosco!" Ainda deu um ultimo abraço e antes de partir, disse: "Espere só mais um poquinho tá? Não vai demorar até o sol se pôr novamente!" Correndo para seu destino, gritou que amava sua maezinha desde o primeiro dia, e se foi.
Ela abriu os olhos, e percebeu que não havia quase mais ninguem ali naquela rua. Começava a chover, e tudo o que ela fez foi caminhar debaixo daquela água. "Não demora até o nascer do Sol", disse. Sorriu, e sentiu-se novamente viva.
(Texto dedicado em memória de Giovanna de Oliveira Barbosa, nossa pequena.)